Educação em pauta

Imagem: A automação vai mudar a forma de trabalho de milhões de brasileiros até 2030.

por Jean Carlos Araujo Ferreira

Coordenador de Formação Humano-Cristã do Colégio Santo Agostinho

14/06/2018

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A automação vai mudar a forma de trabalho de milhões de brasileiros até 2030.

A palavra automação origina-se no latim automatus - aquilo que se move por si. Esse conceito é significativamente abrangente no mundo contemporâneo e diz respeito à profundidade e amplitude das transformações e inovações tecnológicas em curso. Por automação entendem-se "as situações em que o trabalho humano é substituído, sob o aspecto físico ou intelectual, por máquinas ou sistemas aptos a desenvolver automaticamente sequências de operações mais ou menos longas e complexas, sob o controle de aparelhos elétricos ou eletrônicos, de natureza e complexidade variada". (GALLINO, L. Dicionário de sociologia. México: Siglo Veintiuno, 1995. p. 63.).

A utilização de novas tecnologias de automação está conduzindo as sociedades a um novo patamar no que diz respeito às suas formas de trabalho, organização e aprendizagem. Centros de pesquisas, universidades, fóruns mundiais, organizações governamentais ou não debruçam-se sobre os impactos que essa tecnologia já vem produzindo e produzirão para o modo como organizamos a vida em sociedade, o trabalho, a economia, o meio ambiente, as relações internacionais...

Em linhas gerais, esses estudos apontam duas grandes mudanças ocasionadas pelo advento da automação:

  • Qualitativa: a natureza da atividade laboral se modifica. A tecnologia avançada propicia resultados de grande precisão e eficiência, prescindindo do trabalho humano então requerido! Já na próxima década, estima-se que os empregos disponíveis requererão e se deslocarão para outras áreas do saber e do fazer. A natureza das atividades demandará mais conhecimento tecnológico e também criatividade, interação, inteligências múltiplas, conhecimentos de âmbitos diversos.
  • Quantitativa: com as máquinas e processos autômatos ocupando as atividades então conhecidas, muitos dos postos de trabalhos atuais serão extintos. A jornada de trabalho deverá ser mais curta. Maior será o tempo de lazer e a possibilidade de dedicação a trabalhos de cunho humanitário (voluntários ou não), cultural, social, artístico.
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As competências mais importantes que uma criança tem de aprender se relacionam mais a brincar com as outras crianças.


Tais mudanças e transformações não estão pensadas para um futuro distante, algo que se consolidará somente num próximo século. Ao contrário, já estão acontecendo e muitas se concretizarão na próxima década. É provável que as nossas crianças atuais ingressarão em empregos e atividades que sequer existem hoje. E isso será plausível daqui a cerca de 10, 15 anos! Portanto, é algo que os adultos de hoje, pais e mães, já devem ter em consideração na hora de decidir em qual escola seus filhos e filhas estudarão. Em vista dessas mudanças, cabe-nos perguntar: quais valores, aprendizagens, saberes irão, de fato, proporcionar à próxima geração condições de lidar exitosamente com as transformações que já despontam? Vejamos alguns:

Empatia e colaboração

Segundo Ken Goldberg, diretor do Dep. de Engenharia da Universidade da Califórnia, "é um erro supor que aprender códigos de software seja a resposta. O que precisamos é compreender em que as máquinas são boas, e em que elas não são". As competências mais importantes que uma criança tem de aprender se relacionam mais a brincar com as outras crianças e nada tem a ver com máquinas. Trata-se de capacidades humanas que as máquinas não podem reproduzir com facilidade, tais como empatia, cooperação, solução de problemas de modo colaborativo. Estudiosos afirmam que as crianças aprendem melhor brincando e construindo coisas do que ficando sentadas na frente de um computador. "Se você cria e educa crianças para serem flexíveis, resolvam problemas e se comuniquem bem, elas poderão se adaptar a um mundo novo", afirma Stephanie Jones, pesquisadora de desenvolvimento social e emocional da mesma universidade.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/08/1907717-criancas-comecam-a-ser-preparadas-para-a-era-da-automacao.shtml

Flexibilidade e capacidade criativa

Do mesmo modo, o trabalho no presente e futuro valorizará as pessoas com capacidade para o diálogo e as interações pessoais e sociais. "Máquinas e robôs não comandarão reuniões ou departamentos, não serão chefes ou diretores", afirma Erik Brynjolfsson, diretor do departamento de negócios digitais do MIT. Parafraseando uma citação atribuída a Einstein, a máquina faz tudo bem; ela pode resolver todos os problemas que a gente queira; jamais, porém, formulará algum. Nesse sentido, uma formação educacional e profissional que promova o desenvolvimento do pensamento analítico e sintético, boa capacidade de argumentação e oratória, senso de escuta e sensibilidade ética permanecerá sendo fundamental no horizonte de mudanças que despontam nos próximos anos.

https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-impacto-da-robotica-no-mercado-de-trabalho

Capacidade de aprendizagem permanente

Segundo o teólogo Hugo Assmann, "é fundamental considerar a sociedade da informação como uma sociedade da aprendizagem. O processo de aprendizagem já não se limita ao período de escolaridade tradicional. Trata-se de um processo que dura toda a vida, com início antes da idade da escolaridade obrigatória, e que decorre no trabalho e em casa". As novas tecnologias têm um papel ativo e multiplicam as possibilidades de aprender e conhecer. Requerem da própria escola um novo patamar nas relações de ensino e aprendizagem. Reconfigura o papel do professor não apenas como um "transmissor do saber", mas como um mentor e instigador dos saberes já adquiridos pelos próprios estudantes. Isso também muda a concepção do ser-estudante: ele não é mais um mero espectador, mas assume participação ativa na construção dos saberes coletivamente investigados.

Assmann, H. A metamorfose do aprender na sociedade de informação. http://www.scielo.br/pdf/ci/v29n2/a02v29n2

Promover uma educação de qualidade, em sintonia com os novos desafios, para que as pessoas envolvidas criem condições de vida digna: essa é a visão que move a escola agostiniana. Aprimorá-la de modo constante, a fim preparar bem nossos estudantes para as mudanças presentes e futuras é missão de todos nós!