Educação em pauta

Imagem: Em um mundo em constantes mudanças, o que a escola deve ensinar?

por Tiago Silva

Professor do Colégio Santo Agostinho

13/06/2018

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Em um mundo em constantes mudanças, o que a escola deve ensinar?

Os analfabetos do séc. XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender.

Alvin Toffler


Em todo o planeta, as sociedades sofrem profundas mudanças, e isso exige novas formas educacionais que promovam as competências necessárias para a sociedade e suas economias, agora e no futuro. O mundo hoje é conectado, não linear, multidisciplinar e exponencialmente imprevisível. A não linearidade se dá porque os assuntos se misturam e se recombinam, trazendo a necessidade de realizar diferentes atividades que exigem habilidades distintas; um conhecimento multidisciplinar.

Em um passado não tão distante, para realizarmos um trabalho escolar, tínhamos que consultar a nossa imortal BARSA. Nas casas de nossos colegas ou na nossa própria casa, era de praxe utilizar os livros pesados que pareciam ser impossíveis de ter todo o seu conteúdo lido. Hoje temos que fazer uma espécie de curadoria da informação e escolher o que entra e o que sai de nossas constantes pesquisas pela internet durante o dia. Blogs, redes sociais, WhatsApp, jornais on-line, artigos e uma imensidão de informação estão disponíveis a poucos cliques de imersão. Segundo especialistas, no Brasil, chegamos a ficar cerca de 10 a 12 horas por dia on-line e bombardeados por uma enxurrada de informações.

Porém, informação não é necessariamente conhecimento. Embora o desenvolvimento tecnológico permita maior interconectividade e ofereça novos caminhos para trocas e aprendizado, visualizamos paralelamente o aumento da intolerância cultural, conflitos identitários, da violência, vulnerabilidade e desigualdades entre diferentes sociedades em todo o mundo.

A educação, portanto, deve encontrar maneiras de responder a esses desafios considerando múltiplas visões de mundo e outros sistemas de conhecimento que nos mobilize a uma formação humana que seja fruto da conexão entre valores e princípios, juntamente com a excelência acadêmica e as habilidades do futuro. Precisamos de uma abordagem mais fluida da aprendizagem na qual as escolas interajam de formas mais próxima com outras experiências educacionais desde a infância e ao longo da trajetória acadêmica do estudante.

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Alunas do Colégio Santo Agostinho: experiências educacionais que conectam valores, princípios, excelência acdêmica e habilidades do futuro.


O conhecimento é um aspecto central nas discussões sobre aprendizagem e pode ser compreendido como o modo por meio do qual indivíduos e sociedades atribuem significado a suas experiências. Vale destacar que informação também não é experiência. O pensador espanhol Jorge Larrosa Bondía aborda três pontos que podem limitar nossa possibilidade de experiência: a nossa obsessão pela informação; nossa obsessão pela opinião e a nossa “falta de tempo”. Ele ressalta a pobreza de experiência que caracterizam nosso mundo: “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara”.

Isso estimula esforços para pensarmos em uma educação que busca o desenvolvimento de habilidades profissionais e que inclua o ensino de competências que se adaptem à aceleração do ritmo do desenvolvimento científico e tecnológico contemporâneo. Implica assegurar que os estudantes sejam mais resilientes e possam desenvolver as capacidades adaptativas a carreiras de forma mais efetiva. Com frequência, essas competências incluem uma ênfase no que podemos chamar de “habilidades transferíveis”, “habilidades do século XXI” e “habilidades não cognitivas”, incluindo a comunicação, alfabetização digital, resolução de problemas, trabalho em equipe e empreendedorismo, como destacou a agenda de desenvolvimento internacional da UNESCO¹.

No Colégio Santo Agostinho, pensar a produção do conhecimento implica nos lançarmos ao desafio de sermos “descobridores” e “aprendedores”; de propor soluções que passem pelo debate, pelo diálogo, pelo respeito e pelo esforço de partilhar aquilo que faz parte do nosso cotidiano na educação das crianças e adolescentes.

Não nos arriscaríamos a dizer que temos respostas para todos os desafios da educação, em um mundo em constante mudança, pois entendemos que não poderia haver uma solução única e completa. O que podemos afirmar é que, ao longo de mais de 80 anos de história, temos um compromisso com a educação e a formação humana que se adapta, evolui, se fundamenta e que acredita no conhecimento compartilhado, construído coletivamente, com diferentes visões de mundo e rumo ao objetivo de que o diálogo é uma das tecnologias fundamentais na produção do conhecimento, no presente e no futuro, diante de tantas mudanças.

Como destaca a abordagem do professor Ken Robinson, a consciência humana é moldada por ideias, crenças e valores, resultantes de novas experiências e dos significados que extraímos desses fatores. Nossas ideias podem tanto nos libertar quanto nos aprisionar. Em um sentido literal, criamos os mundos nos quais vivemos, e há sempre a possibilidade de recriação. Esse é o nosso propósito e é assim que temos trabalhado frente aos desafios da educação diante de tantas mudanças. Se você quiser se juntar a nós nessa jornada do conhecimento, estamos de portas abertas!

¹UNESCO. Education and Skills for inclusive and sustainnable development beyond 2015: thematic think piece for the UM Task Team on the Post-2015 International Development Agenda. Paris, 2011.