Educação em pauta

Imagem: Quando a tecnologia avança, os valores humanos asseguram o bem comum.

por Flávio Costa Berutti

Professor do Colégio Santo Agostinho

27/08/2018

Compartilhar

Quando a tecnologia avança, os valores humanos asseguram o bem comum.

Nos dias atuais, é cada vez mais forte a sensação de que o tempo está passando mais rápido. Após um dia cheio de trabalho, estudos ou compromissos, muitas pessoas já não conseguem visitar amigos e parentes, passear com os filhos ou ler com calma uma revista ou um livro. Quando se vê, a segunda-feira já virou sexta-feira! Afinal, “o ano está voando”... Mas será que o tempo está mesmo passando mais depressa? Ou será que é apenas uma sensação de aceleração do tempo?Até muito pouco tempo atrás, uma carta de amor era esperada ansiosamente por meses, ou até mesmo por anos. Hoje, por meio de um smartphone, não há distância que não seja reduzida a segundos. Aparelhos da indústria eletroeletrônica, adquiridos como “símbolos da modernidade” há três ou quatro meses, já estão completamente obsoletos perto dos lançamentos. Isso para não falar do mundo da informática e digital, que se moderniza com uma velocidade alucinante.

Na década de 1940, intelectuais profetizavam que a solução para os problemas sociais estava no incremento da liberdade e do progresso tecnológico. Esperava-se que o desenvolvimento da alta tecnologia e a expansão do ideal democrático transformassem a sociedade e convertessem o mundo em um “mundo novo”, melhor para todos.

No final da década de 1990, o mundo se tornou um gigantesco supermercado de produtos de última geração, chamados gadgets, que são oferecidos para, teoricamente, garantir uma melhor qualidade de vida.

Estamos vivendo nummundo de ininterruptas novidades e muitas transformações, mas quase nenhuma reflexão. O novo, essa promessa de uma vida melhor, é o que mais rapidamente envelhece.
E, diante de tudo isso, como preparar seu filho, nossos filhos? Uma pergunta inquietante, pois estamos diante do novo, e tudo que é novo nos surpreende e nos assusta. Vivemos, com toda certeza, num período de transição. E, como observou o
historiador francês Jean Delumeau, toda transição se constitui num “oceano de contradições”.


Quase metade das tarefas feitas por pessoas poderão ser automatizadas
A tecnologia pode ser utilizada para buscar valores consistentes e verdadeiros: verdade, sabedoria, unidade, conhecimento de si mesmo, paz e felicidade.

Em 2016, a Kaiser Family Foundation, uma organização norte-americana sem fins lucrativos, publicou um estudo que revelou dados preocupantes relacionados ao cotidiano dos nossos filhos: crianças e jovens entre 8 e 18 anos passam cerca de 7,5
horas por dia, todos os dias da semana, na frente de um computador, de um videogame e/ou de um celular.

E essas crianças e jovens, muitas vezes, já não sabem ocupar o tempo livre sem o celular. E quais serão os resultados dessa profunda imersão no mundo virtual? Não sabemos.... Estamos num período de transição. Se, por um lado, são perceptíveis os problemas decorrentes do uso de computadores, tablets, videogames e smartphones (perda do ritmo normal do sono, isolamento das pessoas, maior atenção nos aparelhos do que no mundo ao redor), em contrapartida, há também um “lado bom”: o acesso à informação, a conexão instantânea com pessoas queridas, o contato permanente com todas elas.

Mas é preciso ter cuidado! É nas redes sociais que nossos filhos sentem a pressão da sociedade. Centenas e milhares de seguidores esperam que cada indivíduo seja mais feliz, mais saudável, mas produtivo, mais admirado. E, a partir daí, surgem as comparações: os amigos parecem estar sempre mais felizes, mais sarados, mais
elegantes e mais lindos do que os nossos filhos (na percepção destes).

Na realidade, as redes sociais, na maioria das vezes, servem para nos lembrar do que não somos, do que não temos. E isso, para mentes e personalidades em formação, não é saudável. E como preparar seu filho, nossos filhos, nesses tempos em que a lista de desejos aumenta a cada dia e tende a se tornar infinita? O que é de fato essencial?

Precisamos nos valer de toda essa tecnologia, que a cada dia se torna mais “presente” e menos “futuro”, para compreender, apreender e divulgar princípios humanizadores e integradores, conforme os princípios da pedagogia humanística de Santo Agostinho.

Devemos orientar nossos filhos a utilizar os celulares e a internet para ajudar as pessoas – especialmente, as que nós amamos e as que nos amam – a se tornarem indivíduos íntegros, amigos, solidários e fraternos.

As ilusões do Facebook e do Instagram, materializadas nos sorrisos, nos corpos perfeitos, nas férias eternas, na boa comida, nas bebidas e no carro novo, refletem a busca incessante de uma sociedade por riqueza e sucesso.

É preciso orientar o seu filho, os nossos filhos, a utilizar a tecnologia para buscar valores consistentes e verdadeiros: verdade, sabedoria, unidade, conhecimento de si mesmo, paz e felicidade. E isso também está disponível nesse mundo virtual. Com diálogo, orientação baseada na experiência e no amor, essa busca poderá favorecer a vivência desses valores.

Ao se buscar esses objetivos, valores autênticos e estáveis, seu filho, nossos filhos, certamente contribuirão para a construção da cidadania e de uma sociedade mais justa, mais humana e mais fraterna.